Cuidados e Polêmicas: Encontro sobre Aleitamento Materno em João Pessoa, Paraíba
Em abril do dia 14 a 18 aconteceu o encontro sobre aleitamento materno e alimentação complementar saudável em João Pessoa, na Paraíba.
No Enam são discutidos temas importantes:
manejo clínico da lactação,
apoio à amamentação,
bancos de leite humano,
amamentação diversa e inclusiva,
segurança alimentar e sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis,
parentalidade,
benefícios trabalhistas,
gestação, parto e nascimento,
o problema do marketing e dos alimentos ultraprocessados,
a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactantes e Crianças de Primeira Infância, Mamadeiras, Bicos e Chupetas (NBCAL),
Políticas Públicas em Aleitamento Materno e Alimentação Complementar Saudável, incluindo estratégias junto a populações indígenas, entre tantos outros temas importantes e necessários de serem discutidos, difundidos e incorporados de forma adequada pelos profissionais, serviços de saúde, responsáveis pelas políticas de saúde e sociedade civil organizada.
Como em todo encontro, na abertura do evento, mães e seus bebês são convidados para uma amamentação coletiva. Desde 2019 esse encontro não pode acontecer presencialmente devido a pandemia de covid. Este ano, novamente, as mães não puderam estar reunidas para o mamaço, pq no dia 10 de abril, quatro dias antes do encontro, o governo de João Pessoa emitiu esta nota:
“Desta forma a decisão de cancelar o evento mil mães se baseia na justificativa epidemiológica da vigilância em saúde, onde o nosso papel enquanto secretaria estadual de saúde é assegurar a promoção e prevenção de doenças tanto das mães quanto das crianças que estarão aglomeradas no espaço do evento sendo expostas a possibilidades de se contaminarem com algum vírus respiratório deste período sazonal. Assim contamos com a compreensão de todos e estamos à disposição para qualquer outra informação.”
No entanto, apesar da nota informativa que cancelou um evento que acontece há anos, havia idosos, crianças e bebês no evento e nenhuma distribuição de máscaras ou avisos.
“Não tivemos tempo para planejar estratégias de segurança para o evento, como a distribuição de máscaras, considerando que o Centro de Convenções é um espaço grande e que a rotina atual tem desobrigado este tipo de procedimento, mas, sem dúvida, seria uma atitude importante que vamos sempre considerar. O nosso evento no ano de 2021 foi online, devido às necessidades impostas pela pandemia e neste ano de 2024, estávamos muito felizes de poder revermo-nos e nos encontrar sem as exigências impostas do distanciamento social. Novamente isto não justifica, mas é uma tentativa de explicar” disse Rodrigo Vianna, presidente da IBFAN Brasil.
Além da ausência de máscaras, faltou inclusão e cuidado com mulheres e crianças. Todas as mulheres que por algum motivo precisaram levar seus bebês não encontraram lugares inclusivos nos painéis. As caixas de som estavam na frente e o som era muito alto para bebês, o que compulsoriamente colocava estas mulheres para fundo da sala.

“Com relação aos cuidados necessários para o acolhimento das mães com crianças, agradeço as sugestões. Inclusive é muito importante a questão do som no final da sala, e não na frente, sugestão que pretendo fazer sempre, daqui em diante. Os lugares para amamentar parece que foram insuficientes, havia um stand à esquerda, logo na entrada e também tratamos de atender todas as demandas que nos foram feitas durante o evento.” respondeu Rodrigo Vianna, presidente do ENAM/IBFAN.
No último dia de encontro, no painel manejo clínico da lactação: novos protocolos, reuniu mais de cem pessoas na sala Margarida Alves. Eram três referências falando sobre os principais temas para quem trabalha com amamentação: Elsa Giugliani (UFRGS) – Novos Protocolos do Contato Pele a Pele; Vilneide Braga Serva (IBFAN Brasil / IMIP) – Protocolo da anquiloglossia e Keiko Teruya (RSAMCMA) – Protocolo da alta com dramatização mãe/bebê ao vivo.
Keiko faz demonstrações ao vivo há mais de 20 anos em rodas de conversa, congressos e cursos de amamentação mostrando o protocolo da Alta nos hospitais, para profissionais de saúde.
“Entrei em contato com uma médica de João Pessoa solicitando a escolha de uma mãe/filho recém saída da maternidade para fazer a demonstração da pega, posicionamento do bebê e extração manual do leite de peito, ao vivo.
Para minha surpresa, vi que na sala de apresentação havia chegado uma mãe com roupa do hospital e um RN pequeno. Pedi verbalmente à essa mãe o aceite em participar da demonstração, o que foi acordado de pronto.” – Dra Keiko em relato enviado para este portal.
Debora, uma mulher adulta, negra, com uma pulseira e camisola de hospital chega lentamente caminhando com seu bebê no colo. Ela senta devagar em uma poltrona a frente de um auditório com mais de cem expectadores na platéia e responde às perguntas de Keiko; ao responder ela diz que sua filha é um bebê de 36 semanas, prematuro de cinco dias. Enquanto isso a bebê chora.
– Debora, qual o nome da sua filha?
Debora responde, no audio não fica claro o nome da Bebê e a Dra Keiko pergunta quem escolheu o nome e Debora responde: “foi o pai”
então Dra Keiko sorrindo com a platéia, diz: “então na sua casa quem manda é o pai?”
Debora responde: “só no nome.”
A platéia de congressistas ri junto.
Keiko pede para Debora contar o que esta acontecendo e Debora responde que a bebê é prematura de 36 semanas. Dra Keiko pede um outro microfone para que todas as pessoas possam escutar Debora e uma pessoa fica segurando o microfone. Debora segura seu bebê recém-nascido de cinco dias com as duas mãos.
– você tem alguma preocupação?- pergunta Keiko para Débora, e continua: – quem quiser pode chegar mais perto – falando com a platéia com mais de 100 pessoas.
– Ela se alimentar e pegar peso; responde Debora enquanto a bebê chora.
– você gostaria de dar só o peito pra ela? pergunta Keiko
– sim, só o peito;
– Vejo que você é tão inteligente Debora.. pq vc sabe o que é o seu leite. O que é seu leite pra ela? pergunta Keiko apontando para a bebê.
– a sobrevivência dela, responde Debora.
– olha, gente, ela não é médica. é uma pessoa normal e responde maravilhosamente bem, realmente é pra sobrevivência. Pq Debora, vc acha que é pra sobrevivência?
– eu acho que é a única forma dela sobreviver.”
“A amamentação diminui a mortalidade infantil, protege contra desnutrição e doenças infecciosas da primeira infância. Também tem efeito protetor contra doenças cardiovasculares, como hipertensão, diabetes, infarto, que hoje são importante causa de adoecimento e morte precoce na população negra.” essas informações estão disponível em: Amamentação Negra
Mulheres pretas amamentam mais tempo, por um fator chamado racismo alimentar.
O estudo que traz essas evidências é o Enani.
Keiko pega o bebê recém nascido prematuro de cinco dias no colo sem nenhuma proteção e continua falando ao microfone recomendações de saúde. A bebê não para de chorar e outra pessoa pega o bebê prematuro, a mesma pessoa que estava segurando o microfone da Debora. Nenhuma pessoa estava com proteção.
Débora estava com as mamas de fora, depois de cinco dias do filho nascido, vulnerável e servindo de exemplo para um público em sua maioria branca. Nesse momento, seu bebê prematuro estava no colo de uma quarta pessoa que estava sentada no chão, sem nenhuma proteção.
keiko então sugere rezar pra ter bastante leite. Junta as mãos e fricciona as palmas para esquentar e fazer massagem, enquanto Débora está fazendo a massagem em sua própria mama Keiko diz aos congressistas: “olha ela já sabe tanta coisa”.
Passados alguns minutos do inicio da apresentação, os congressistas começaram a sair da sala e alguns conversavam entre si sobre como a apresentação de Keiko era indevida.
– foi muito desconfortável, era um bebe recém nascido, exposto a uma plateia sem nenhuma proteção, uma mulher extremamente vulnerável psiquicamente e tbm fisicamente, ela tava de camisola na frente de todo mundo. Keiko é delicada, é maravilhosa, mas naquele dia eu não observei nenhuma apresentação de nenhuma novidade. E foi extremamente desconfortável para o bebe para a mãe, para o bebê, para mim, não sei para as outras pessoas pq eu vi muita gente filmando e batendo palma. Relatou Claudia Palombo enfermeira e professora da universidade federal da Bahia da escola de enfermagem.
– Foi um misto de sentimentos as falas da Dra Keiko quando ela falou que “ela não é médica, ela é normal” o que é anormal? o médico é o que? ele é superior? então essa fala que me marcou e também quando ela diz que a parturiente não é burra de um jeito que a mulher ia se sentir burra mesmo, do jeito que ela ta falando que a pessoa não é formada .. enfim as falas me marcaram e causaram desconforto e eu sai da sala. Não houve a aula de novos protocolos que era o tema principal do painel, e enquanto profissional que paguei caro para ir ao congresso eu escolhi aquela sala pq eu queria me atualizar nos novos protocolos e algo que vi ali foi algo muito básico de um curso de aconselhamento e não de protocolo. Foram muitas violências com a Debora e com o recém nascido – relatou Vanessa Fernandes, nutricionista
-Quando a Dra. Keiko começou a conversar com a mãe, fiquei chocada em saber que a bebê era prematura. Achei muita irresponsabilidade levar uma bebê prematura, para um local com aglomerado de pessoas, de vários locais do Brasil, em uma sala fechada. O “Mil mães amamentando” foi cancelado justamente porque houve aumento exponencial de casos de síndromes gripais e SRAG em crianças na Paraíba, então achei super incoerente a presença dessa mãe lá. Quando ela começou a entrevistar a mãe, ela perguntou o que a mãe pensava sobre o leite dela. Quando a mãe falou que era o melhor alimento para a bebê dela e alguns benefícios, a Dra. Keiko falou: “Ta vendo gente! A gente acha que a mãe é burra, mas a gente que é burra de pensar assim. A mãe sabe.” Eu fiquei horrorizada com essa fala.
Aí quando eu achei que iria para a parte do manejo em si, o que aconteceu foi uma palpação da mama, sem luva, sem passar um álcool na mão (mão que estava segurando o microfone, que passou nas mãos de outras pessoas… enfim). Teve uma outra pessoa que também pegou no peito da mãe, não lembro quem era.
Ela falou a massagem, da ordenha, da importância do estímulo da mama. Quando a bebê foi ser colocada no peito para realmente vermos a questão do manejo, ela estava super irritada, a mãe estava tensa e não aconteceu a amamentação em si.
Em nenhum momento NINGUÉM falou para não divulgar a foto ou vídeo da mãe amamentando.
Eu saí de lá super chateada, descrente com o Congresso porque parecia uma coisa extremamente improvisada, sem nenhuma proteção ao aleitamento materno e sem o MANEJO que era a temática do painel. Sem contar que a cada momento ela falava o nome da bebê de uma forma diferente, não acertou o nome da bebê nenhuma vez, sempre alguém corrigia ela. contou ao portal TMEOM, Poliana Resende Mendonça, Nutricionista e Consultora de amamentação.
– Já participei de outros eventos de Keiko falando sobre aconselhamento e sempre foi bem empático, então foi muito estranho pq quando essa paciente foi anunciada e foi dito que seria uma simulação de atendimento com orientações pra alta já me gerou um desconforto. E na conversa inicial de keiko com Debora, na frente de um auditório lotado e ai a paciente disse que era um bebe prematuro de 36 semanas e qe tava há 5 dias pós parto. Como que você tira uma paciente institucionalizada com um bebê prematuro nascido há 5 dias, se até um evento institucional com mães saudáveis foi suspenso por conta do risco de contaminação, como que vc traz uma mulher puérpera pra um evento com grande circulação de pessoas? E a cena em si tbm era absurda. Pq muita gente da platéia começou a aglomerar frente, com seus celulares e gravando, filmado tudo aquilo. Foi uma grande exposição e daí a paciente expôs a mama a pedido de keiko para mostrar ordenha, pega, uma exposição grande. Foi uma pratica violenta como demonstrado no estudo “A vagina-escola: seminário interdisciplinar sobre violência contra a mulher no ensino das profissões de saúde” E daí eu sai da sala, foi tudo muito violento e simplesmente e não tive ação, tive vontade de falar com a mesa apresentadora, mas acabei não entendo se era só eu que estava desconfortável pq eu estava vendo um monte de gente aplaudindo, filmando e então me retirei. Fiquei do lado de fora esperando pra ver se tinha algo mais, e quando acabou Lucia pediu a palavra e pediu que quem tivesse filmando não publicasse, que não divulgasse por se tratar de uma paciente hospitalizada pois não se sabia se ela tinha assinado o termo de uso de imagem, mas foi em vão pois tinha gente transmitindo ao vivo. relatou Manoel Adauto, enfermeiro obstetra e IBCLC
– Eu estava de blusa comprida e com frio, fiquei só pensando naquela mãe com os seios de fora o quão invasivo e desconfortável deve ter sido a experiência. Acredito que poderia ter sido muito mais proveitoso se fosse trazido uma apresentação em slides com imagens pois num auditório grande daqueles tentar reproduzir o que deveria ser um acolhimento não deu certo. Eu estava na terceira fileira e não conseguia ver direito – relatou Livia Salvador, nutricionista.
Ninguém da plateia interviu durante a apresentação de Keiko.
“Da minha parte, jamais tive intenção de causar qualquer dano à mãe e nem tampouco ao bebê. Após a apresentação, fui agradecida pela mãe, dizendo de sua felicidade em ter contribuído para o evento. Esclareceu que todas as dúvidas que tinha em relação à amamentação foram sanadas. Prosseguiu, informando que iria amamentar, pois observou que tinha leite em seu peito. Telefonei para a médica da maternidade onde a mãe havia sido atendida e fui informada pela mesma que a mãe já havia saído de alta, amamentando só no peito e que a criança estava saudável. Reforçando o suporte, pedi à médica que acompanhasse o bebê e a mãe. Prontifiquei-me ainda em manter contato com a mãe e a bebê.” disse keiko em uma carta relato para este portal.
Maria Inês Couto de Oliveira, Coordenadora Nacional da rede IBFAN foi procurada por congressistas que foram externalizar o desconforto com a situação.
“a Dra. Keiko já participou de vários ENAMs, inclusive contribuindo com o tema do manejo da amamentação, portanto, não perguntamos que abordagem seria feita. Eu falei com a Dra Keiko pelo telefone, e ela me informou que solicitou a uma pediatra amiga a presença de uma mãe de João Pessoa para ajudá-la na demonstração de pega e posição, mas também não sabia que seria enviada uma mãe internada com um bebê recém-nascido. Concordamos que a exposição de uma mãe internada com recém-nascido em uma mesa redonda num Centro de Convenções com muitos participantes, que inclusive fotografaram e filmaram a abordagem, é inadequada, pedimos desculpas pelo ocorrido e estaremos atentos para que este tipo de ocorrência não se repita mais.”
Debora foi levada ao centro de convenções de João Pessoa no carro pessoal da neuropediatra Juliana Soares, que atendeu ao pedido de Keiko para dramatização ao vivo em um auditório com mais de cem pessoas sem qualquer proteção, em pleno surto de doenças respiratórias e saiu do ENAM no carro da pediatra.
Infelizmente, Juliana Soares não respondeu a nenhuma das msgs enviadas.
A IBFAN informou não ter o contato telefônico de Juliana Soares.
A ouvidoria e a SECOM do governo da Paraíba não retornaram os e-mails.
A associação de Doulas da paraíba não se posicionou.
Não há espaço para que em 2024 no evento que fala sobre direito a amamentação uma mulher seja submetida a violência obstétrica, neonatal, social, política e histórica.
A apuração dessa reportagem segue com perguntas não respondidas:
Como a IBFAN/ENAM não tem acesso ao telefone da responsável por levar uma convidada para o Congresso?
Qual protocolo foi seguido para retirar a puérpera Debora, internada com filho prematuro de cinco dias para a demonstração de protocolo de alta, em um evento com pessoas sem proteção e durante um surto de doenças respiratórias?
Como os responsáveis pela exposição de Debora serão responsabilizados?
Qual o comprometimento da IBFAN para que palestrantes não levem convidados a revelia durante o ENAM?
Porque ninguém do congresso presente na sala interviu quando entenderam que se tratava de uma parturiente que ainda não teve alta, pois estava de pulseira e camisola do hospital?
Será que submeteriam uma mulher branca que pariu no hospital particular a essa situação?
Será coincidência o corpo que está sendo utilizado ser uma mulher negra? O Hospital onde ela estava internada era público, não é mesmo?! Sinto muito por ela ter sofrido tamanha violência e nem sabe.